Ingredientes e Ativos

Standing Forest: como a BASF quer transformar andiroba em ingrediente cosmético rastreável

A iniciativa Standing Forest, da BASF, usa a cadeia da andiroba para desenvolver ingrediente cosmético com rastreabilidade e repartição de benefícios.

por carloscosmeticosbr 7 min de leitura

Em outubro de 2026, a BASF apresentou o Standing Forest, uma iniciativa que conecta biodiversidade amazônica, pesquisa e desenvolvimento de ingredientes para a indústria de cuidados pessoais. O primeiro movimento anunciado parte da andiroba e tenta transformar uma cadeia extrativista em matéria-prima cosmética com rastreabilidade e repartição de benefícios.

A etapa inicial está concentrada no Médio Juruá, em Carauari (AM). Segundo a própria empresa, o projeto prevê capacitação de coletores, foco no desenvolvimento de mulheres, benefício para aproximadamente 200 famílias e impacto estimado em 1.200 pessoas de 25 comunidades da Reserva de Desenvolvimento Sustentável Uacari.

Sementes de andiroba sobre superfície azul
Sementes de andiroba, matéria-prima da cadeia citada pela BASF. Foto: CostaPPPR/Wikimedia Commons (CC BY-SA 3.0).

O que é o Standing Forest

O Standing Forest foi anunciado pela BASF em 13 de outubro de 2026 como um programa de desenvolvimento de matérias-primas de origem responsável. A proposta combina três frentes: conservação da floresta, uso sustentável de recursos da biodiversidade e geração de oportunidades para comunidades locais. A empresa afirma que também pretende trabalhar com cadeias produtivas rastreáveis e conhecimento tradicional associado.

O desenvolvimento técnico começou na unidade da BASF em Jacareí (SP), com quatro rotas de pesquisa para investigar óleos, resíduos de cadeias já existentes e materiais ainda pouco utilizados em cosméticos. A empresa descreve o programa como uma iniciativa com possibilidade de expansão para outras regiões da Amazônia, mas não divulgou, no comunicado de lançamento, cronograma, volume de matéria-prima ou metas comerciais para essa expansão.

Por que a andiroba foi escolhida

Na primeira cadeia do programa, a andiroba é o ponto de partida por causa do óleo extraído de suas sementes. A BASF afirma que pretende apoiar práticas sustentáveis de coleta e manejo e trabalhar com uma rede de organizações e instituições que já atuam na região em monitoramento florestal, capacitação comunitária e comércio ético.

O comunicado também informa que a BASF firmou acordos de consentimento prévio com as comunidades para acessar conhecimento tradicional associado ao uso do óleo de andiroba. O Ministério do Meio Ambiente explica que a legislação brasileira trata do acesso ao patrimônio genético e ao conhecimento tradicional associado e prevê repartição justa e equitativa dos benefícios resultantes da exploração econômica.

Esse ponto é importante porque “ingrediente amazônico” não é, por si só, uma comprovação de origem responsável. A documentação sobre a origem da matéria-prima, o consentimento, a repartição de benefícios, as condições de trabalho e a continuidade do fornecimento é que permite avaliar a cadeia. No caso do Standing Forest, os detalhes divulgados até agora são os apresentados pela BASF; o comunicado não informa valores dos acordos nem documentos independentes que permitam medir seus resultados.

Onde entra o Cetiol Forest CG

O Cetiol® Forest CG é apresentado pela BASF como o primeiro produto do Standing Forest. Trata-se de um emoliente para formulações de cuidados da pele e dos cabelos, portanto um ingrediente destinado a fabricantes de cosméticos, e não um produto pronto para o consumidor usar diretamente.

Segundo a descrição da empresa, o ingrediente aproveita integralmente o óleo de andiroba, incluindo frações com acidez elevada que não seguem os padrões convencionais de mercado. O processo informado usa etanol renovável como agente de reação no lugar do metanol convencional para transformar a matéria-prima em um éster. Essas são informações técnicas e alegações da fabricante; o comunicado não apresenta, por si só, estudo independente de desempenho, concentração de uso, custo ou lista de produtos acabados que já utilizem o ingrediente.

Para quem acompanha a formulação, a novidade está menos em uma promessa cosmética ao consumidor e mais na tentativa de agregar valor a uma cadeia de óleo vegetal antes da etapa de formulação. A avaliação de um ingrediente desse tipo exige separar a história de origem, o desempenho sensorial e técnico, a segurança da fórmula final e a comprovação de cada alegação feita na embalagem.

O que o projeto sinaliza para a indústria cosmética

  • Rastreabilidade passa a ser parte do desenvolvimento. A origem da matéria-prima precisa ser acompanhada desde a coleta até o ingrediente entregue ao formulador. Isso reduz o espaço para usar a biodiversidade apenas como narrativa de marketing.
  • Desempenho e origem são critérios diferentes. Um ingrediente pode ter uma cadeia de fornecimento bem documentada e ainda precisar demonstrar estabilidade, compatibilidade, segurança e desempenho na formulação em que será aplicado.
  • Resíduos e frações fora do padrão podem ganhar novo uso. O aproveitamento de frações com maior acidez, citado pela BASF, aponta para uma lógica de valorização integral da matéria-prima. A viabilidade depende de escala, padronização e controle de qualidade.
  • A relação com comunidades deixa de ser um detalhe periférico. Consentimento, repartição de benefícios e condições de fornecimento precisam estar previstos na cadeia, especialmente quando há conhecimento tradicional associado.

Esse movimento conversa com outras discussões recentes do setor, como a necessidade de tornar as informações de ingredientes mais claras no rótulo. A origem de uma matéria-prima pode enriquecer a comunicação de um produto, mas não substitui a descrição correta da fórmula nem a comprovação das alegações feitas ao consumidor.

O que ainda não foi divulgado

O anúncio não informa o preço do Cetiol Forest CG, a capacidade de produção, os clientes que poderão utilizá-lo, certificações de terceira parte, resultados comparativos com outros emolientes ou indicadores ambientais auditados. Também não permite concluir que todo produto final que use andiroba terá o mesmo modelo de origem e repartição de benefícios.

Por isso, a leitura mais segura é tratar o Standing Forest como uma iniciativa de desenvolvimento de cadeia e ingrediente em fase inicial de apresentação pública. A proposta é relevante para a indústria, mas seus resultados terão de ser acompanhados por documentos de rastreabilidade, dados técnicos e evidências sobre os efeitos econômicos e sociais nas comunidades envolvidas.

O que isso muda para o consumidor

Por enquanto, a novidade não muda uma rotina de skincare nem indica um produto específico para compra. Se um cosmético futuro mencionar andiroba, bioeconomia amazônica ou origem responsável, o consumidor pode verificar qual é a função do ingrediente na fórmula, quais alegações são efetivamente comprovadas e se a empresa informa a procedência de maneira verificável.

Também é importante não confundir a presença de um ingrediente natural com segurança ou eficácia garantidas. A avaliação depende da fórmula completa, do uso indicado, da qualidade do produto e da regularização aplicável ao cosmético acabado.

Perguntas frequentes

O Cetiol Forest CG é um cosmético pronto?

Não. Segundo a BASF, ele é um emoliente destinado a formulações de cuidados da pele e dos cabelos. O uso e as alegações de um produto final dependerão da fórmula e da empresa que o fabricar.

O Standing Forest já está presente em várias regiões da Amazônia?

O anúncio descreve o Médio Juruá como a etapa inaugural e menciona a intenção de expansão. Não há, no comunicado consultado, confirmação de operação equivalente em outras regiões.

Andiroba significa automaticamente cosmético sustentável?

Não. A espécie ou o ingrediente natural não basta para comprovar sustentabilidade. É preciso avaliar origem, manejo, rastreabilidade, consentimento, repartição de benefícios, condições de produção e evidências das alegações ambientais.

Fontes e limites desta análise

As informações sobre o Standing Forest e o Cetiol® Forest CG foram conferidas no comunicado oficial da BASF publicado em 13 de outubro de 2026. O enquadramento sobre patrimônio genético, conhecimento tradicional e repartição de benefícios foi consultado nas páginas do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima, incluindo a atualização das perguntas frequentes em 15 de julho de 2026. Como o principal anúncio é uma divulgação corporativa, as afirmações sobre impacto, desempenho e benefícios foram atribuídas à BASF e não tratadas como auditoria independente.

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